“Um dia, eu sei que irei acordar e ver que tudo passou. Pois um novo dia é um novo recomeço. Eu sei que limparei meus olhos e enxergarei o mundo a minha volta. Começando por você, esse alguém que me fez parar no tempo. Olharei além daquelas cortinas rosadas e sentirei o calor do sol aquecer meu corpo, enquanto em delírios ainda te vejo partir. O peso de minhas lágrimas escorrendo pelo meu rosto dará espaço à saudade que de pouco em pouco se perderá no esquecimento. E esses meus olhos irão te guardar na memória, mostrando apenas os bons momentos que apesar de poucos me trouxeram a realidade. Minha boca, que ainda sussurra o teu nome, aprenderá também a te esquecer como palavras levadas ao vento. Meus ouvidos não escutarão mais o som da tua voz, que se faz presente em todas as manhãs. Não mais sentirei teu cheiro que mesmo com todo o tempo, não sai do meu cobertor. Meus pés cansados de andar sem alguma direção seguirão um rumo diferente do seu, mesmo sabendo que é você a minha única felicidade. Esses braços que um dia te receberam, acolherão um outro alguém na vã esperança de preencher o espaço deixado. E por fim, esse meu coração despedaçado, se erguerá e mostrará para você que tudo de ruim passou e que nele reside uma outra pessoa capaz de refazer a minha vida e de me mudar de rumo, assim como você fez. Uma pessoa que vala a pena chorar, mais que diante tudo eu sempre irei lembrar. Um dia que não é hoje, e que talvez não seja amanhã. Um dia em que aprenderei a viver sem te ter. E enquanto esse dia não chega, continuarei a escutar a mesma musica enquanto lembro-me de você, usarei aquele cobertor machado pelas suas mentiras, pisarei nesse chão que sem dignidade alguma um dia você cuspiu perante a mim, usarei esse mesmo perfume que teu cheiro me faz lembrar, olharei além daquela janela onde meu coração você teve a ousadia de jogar. Serei a mesma menina indefesa tentando encontrar a coragem para seguir sem você, buscando por uma única esperança em um novo amanhecer.”
Relutando 

“Não adianta ser bonita por fora se é feia por dentro, não adianta ter salto, e não saber andar, não adianta ser quente, e não pegar fogo, e não adianta ser mulher se não sabe se comportar como uma.”
Tati Bernardi 

“Por tantas vezes julgamos a vida, mesmo sem saber o que as outras pessoas passaram, por vezes sofremos tanto que achamos que ninguém no mundo nunca vai sofrer como nós, naquele momento, é como se no mundo só existisse um coração pulsando lentamente, a memoria de algo que nos corroi, e o sofrimento que as poucos vai acabando com nossas esperanças de um dia poder ser feliz novamente, amar novamente, e se recuperar do que nos causou tanta dor, tanta angustia. E quando só resta chorar, e tentar arrumar algo no qual nos traga o brilho nos olhos, e a felicidade em um simples e sincero sorriso.”
Relutando 

“É tão lindo quando você sente que encontrou a pessoa certa. Quando você percebe que todas as suas orações à Deus foram atendidas. É tão lindo quando cada choro baixinho durante a noite se transforma em sorrisos e sonhos de um futuro bom. Quando um abraço, mais que qualquer outro, te aconchega e te faz sentir pequenina diante de tanta ternura. É tão lindo ser cúmplice, amante, e amigo. Ouvir e contar histórias tão bobas, e rir. Olhar nos olhos e contemplar, e apenas conseguir pensar: te conhecer foi a melhor coisa que me aconteceu, eu tenho sorte de ter você!”
Plenitude. 

Ser feliz. Ser alegre mesmo quando seu leite em pó está com horas contadas. Ser otimista mesmo quando uma prima distante quer roubar o carinho que você recebe de sua avó. Manter a paciência quando seu professor não se importa com a sua vida social. Ter esperança mesmo quando a sua nota de redação no vestibular foi um desastre. Continuar escrevendo poesia mesmo que precise treinar a narrativa. Ler romances de autoras desconhecidas ao invés de clássicos nacionais. Ler clássicos brasileiros sem ser por obrigação. Ter um escritor favorito e indicar para alguém os livros deste. Possuir uma banda favorita e que é só sua, mas que às vezes pode se fazer um esforço para compartilhar algumas canções desta com seus amigos mais próximos. Tomar sorvete para espantar as lágrimas pelo ex. Se maquiar todinha na frente do espelho enegrecido com as sombras de sua avó para ir para uma festa de forró para apenas rir ou reclamar de tudo. Se permitir ouvir um estilo musical que você odeia, apenas para reclamar com o grupo e aproveitar a batida para pular e dançar no seu carnaval em pleno novembro. Manter a pureza e a elegância dos gestos, mesmo quando ouve-se tantos palavrões hoje em dia. Falar palavrões apenas quando se bater o dedão em alguma quina e alto lá. Conversar com sua avó paterna sobre os problemas sociais. Comunicar seus sentimentos mais profundos e desconhecidos. Ler a bula do remédio de pressão, sem nem tocar neste. Comprar diversas balas redondas e coloridas e se suicidar de mentira com estas. Passar protetor solar em dias nublados. Tomar banho de chuva na redenção da seca nordestina. Escrever sobre amores impossíveis e desconhecidos. Discutir sobre as cores e sobre os tecidos. Abraçar forte uma pessoa do seu mesmo sexo. Fazer caretas sensuais em fotografias. Rir sem parar com desenhos toscos. Mandar cartas para amigos desconhecidos que moram do outro lado do país. Aguardar ansioso os dias para sua correspondência chegar. Se estressar atoa e ter alguém engraçado te chamando de explosivo. Molhar alguém por vingança. Ser rabugento e reclamar das traquinagens de seus irmãos e ainda assim comer biscoitos recheados escondidos, quando todos já se deitaram e adormeceram. Dormir até tarde. Ficar insone a noite toda ansioso esperando coisas boas do dia seguinte. Receber uma mensagem na virada do dia. Mandar para si próprio uma flor ou uma correspondência assinada por um admirador secreto. Se esquecer da data de aniversário de um amigo e fazer uma festa surpresa para se redimir. Assistir sozinho sua série favorita e obrigar seu gato a te acompanhar neste ato. Ser atoa mesmo fazendo muitos atos. Ser ateu por um dia, apenas para perceber como a vida é impossível sem uma força divina. Ser fiel em momentos de dúvida. Ser agnóstico em dias santos. Ser devote de Iemanjá na noite de natal, apenas para contrariar a vida. A vida é curta, como um filme, porém como nos longas podemos ser felizes e contentes de nós mesmos. Ser alegres por simplesmente ser. Feliz por apenas querer e fazer. Aprender a amar sem cores, pois a vida é gostar do outro. Paixão é vela que se apaga logo, mas o amor mesmo não. Amor é mais abraço do que beijo. Amor é amizade, harmonia e maresias. O amor é clichê quando se assim deseja. O desejo em si que é clichê. O amor, o bruto e puro, é uma das coisas mais difíceis de se achar. Porém o amor está no ar e basta se inalar para se alegrar um pouco. Ame-se, para de procurar caras metades, você já possui uma inteira para se contentar com si próprio. Queira bem para si próprio, seja carinho com seu ego. O resto é consequência e incidência. O resto é a cargo do amor.
Vinícius Canário.  

“Escrevo isso e choro. Porque quero tanto e não quero tanto. Porque se acabar morro. Porque se não acabar morro. Porque sempre levo um susto quando te vejo e me pergunto como é que fiquei todos esses anos sem te ver. Porque você me entedia e dai eu desvio o rosto um segundo e já não aguento de saudade. E descubro que não é tédio mas sim cansaço porque amar é uma maratona no sol e sem água. E ainda assim, é a única sombra e água fresca que existe. Mas e se no primeiro passo eu me quebrar inteira? E se eu forçar e acabar pra sempre sem conseguir andar de novo? Eu tenho medo que você seja um caminhão de luz que me esmague e me cegue na frente de todo mundo. Eu tenho medo de ser um saquinho frágil de bolinhas de gude e de você me abrir. E minhas bolhinhas correrem cada uma para um canto do mundo. E entrarem pelas valetas do universo. E eu nunca mais conseguir me juntar do jeito que sou agora. Eu tenho medo de você abrir o espartilho superficial que aperto todos os dias para me manter ereta, firme e irônica. Minha angústia particular que me faz parecer segura. Eu tenho medo de você melhorar minha vida de um jeito que eu nunca mais possa me ajeitar, confortável, em minhas reclamações. Eu tenho medo da minha cabeça rolar, dos meus braços se desprenderem, do meu estômago sair pelos olhos. Eu tenho medo de deixar de ser filha, de deixar de ser amiga, de deixar de ser menina, de deixar de ser estranha, de deixar de ser sozinha, de deixar de ser triste, de deixar de ser cínica. Eu tenho muito medo de deixar de ser.”
Tati Bernardi.  

“Eu não quero que você perca a fé. Só quero que entenda que nada vai voltar a ser como era antes. E como isso dói. É uma dor funda, que remexe as sensações, que quase ofusca as lembranças, que sacode todos os momentos vividos, que grita pela volta, que implora pela calma. Ah, se a gente tivesse o dom da transformação. Se a gente conseguisse tirar a mágoa, a dor, a raiva, a revolta, a briga, a palavra que entalou na garganta, o sofrimento silencioso, a separação. Ah, se a gente pudesse riscar tudo o que passou e escrever uma nova história. Mas eu não posso, você não pode. E só nos resta esperar e torcer para que tudo fique, de alguma forma, bem.”
Clarissa Corrêa. 

Eu me declarei pra você milhares de vezes. Quando eu ri daquela sua piada idiota que não teve a menor graça e quando dei risada das piadas de mau gosto que você fez sobre mim. Lembra? Eu deixei você me zoar porque você achava muita graça naquilo, e se te faz feliz… Bom, me faz feliz. Quando eu deixei os outros um pouquinho de lado pra dar toda a atenção pra você. Quando eu ouvi as músicas que você me mandou, mesmo elas não sendo do meu gosto. Lembra… Quando eu tratava todo mundo mal, mas era super gentil com você? Então. Isso também foi uma declaração, mesmo que silenciosa. Quando eu aguentei suas grosserias todas porque você teve um dia ruim. E também quando eu deixei você descontar todas as suas frustrações em mim, mesmo eu não tendo nada a ver. Quando eu te fiz sorrir quando tu chorava por outra pessoa. Quando eu te defendi do mundo mesmo você estando completamente errada. Quando eu deixei de ficar irritado só porque você tava mal e precisando de alguém. Eu me declarei pra você tantas vezes, da minha maneira… Só você que não viu.
Vinícius Kretek.  

“O ruim de ser eu mesma é que, por mais negativa e realista que eu aparente ser por fora, no fundo sempre vou ter essa esperança chata até o último minuto do segundo tempo. Sempre vou querer acreditar no lado bom das pessoas até que se prove o contrário. Algumas vezes, até depois que se prova o contrário. Escondo do mundo essa minha fé inabalada porque quando a realidade aparece e as coisas não são como elas deveriam ser, isso me destrói. Me frusta. É como se socassem mil vezes meu estômago. Minha espera incansável sempre me cansa. E ninguém precisa saber disso. É como se eu dissesse para a pessoa que está do meu lado, “não vai dar certo, não ligo, deixa pra lá”, ao mesmo tempo que repito mentalmente, “por favor, que eu esteja errada”.”
Iolanda Valentim.

“Pouca comida é miséria, comer pouco é educação. Feiura no rosto é apenas feio, feiura na tela é irreverência. Lixo é repugnante, lixo moldado é reciclagem. Mulher nua na rua é prostituta, mulher nua na rua segurando um cartaz é protesto. Velho com vitrola é atrasado, jovem com vinil é estilo. Pobre artista é pichador, rico com tinta é gênio. Baile funk é perda de tempo, balada eletrônica é diversão. Ir sem roupa ao shopping é atentado violento ao pudor, ir sem roupa à praia é naturalismo. Milionário usando chinelas é humilde, humilde com chinela é milionário. Cachorro com coleira é fofo, cachorro sem coleira é vira-lata. Sirene em bairro rico é ambulância, sirene em favela é polícia. Estrondo em dia de jogo são fogos de artifício, estrondo em dia de jogo dentro da comunidade são traficantes. Aluno que cola é esperto, aluno que estuda é otário. Mentira dita muitas vezes é verdade, verdade nunca dita é mentira. Solidão aos dezesseis é drama, solidão aos sessenta é necessidade. Cabelo enrolado é cabelo ruim, cabelo liso com babyliss é sexy. Palmada em filho é disciplina, palmada em aluno é caso de notícia. Modelo gorda é inaceitável, modelo magra é pleonasmo. Macaco é racismo, branquelo é apelido. Seios na televisão é apelação, seios na televisão em fevereiro é carnaval. Foto do pé é cafona, foto do pé com efeito de instagram é vintage. Criança magra é desnutrida, criança obesa é descuido. Menino com amigas é gay, meninas com amigos é oferecida. Homem com várias é inspiração, mulher com vários é mal falada. Adotar um bebê é amor, adotar um adolescente é caridade. Palavrão na rua é baixaria, palavrão na música é alternativo. Verde e amarelo é cafonice, torcer pra seleção é patriotismo. Beijar é bom, beijar dois na mesma festa é segredo, beijar outro é traição, beijar ninguém é ser encalhado. Andar de mãos dadas é fofo, andar da mãos dadas com alguém do mesmo sexo é pouca vergonha. Reclamar do governo é legal, fechar a TV no horário político é rotina. Mandar cartas é velharia, receber cartas é romantismo. Não ter filhos é lamentável, optar por não ter filhos é estilo de vida. Xingamento na cama é ousadia, xingamento na mesa é barraco. Criança loira, bem vestida e sozinha está perdida, criança negra, suja e sozinha é assaltante. A fome é um problema mundial, a fome do outro não é problema meu. Bonita e difícil é atraente, bonita e fácil é vagabunda, feia e difícil é burra, feia e fácil é descartável. Bater em mulher é machismo, mulher bater em homem é engraçado. Católico assassino é banalidade, protestante assassino é hipocrisia. Passear no campo é liberdade, morar no campo é falta de dinheiro. Óculos espelhado é horrível, óculos espelhado de marca é moda. Livro de cinquenta reais é caro, uísque de cinquenta reais é festa. Matar um cachorro é desumano, matar um boi é churrasco. Um assassinato é fatalidade, três mil é estatística. Ser ou não ser é Shakespeare, indecisão é defeito. Acreditar no amor é beleza, acreditar em alienígenas é ilusão. Grito na música é rock’n’roll, grito sem ritmo é falta de argumentos. Loucos só passaram a existir quando a normalidade foi inventada, diferenças só não foram aceitas quando alguém tentou ser diferente. Conceitos não mudam realidades, mas realidades mudam conceitos. Pessoas não são palavras, mas palavras formam pessoas. Se é certo que somos produtos do meio, é certo também que somos somente produtos. Indivíduos são matérias-primas em abundância, mas individualidade é artigo de luxo. Rótulo na embalagem é essencial, rótulo em tudo é apenas uma sociedade.”
Cinzentos.